terça-feira, 23 de setembro de 2014

ERA ELA

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Era ela
A menina sutil
me olhando em análise
- lenta -
ritmo de cantiga ninar
me embalando cadente

Era ela
A menina bigorna
me sentindo com força
- afoita -
ritmo de mascar chicletes
me mordendo as beiradas

Era ela
A menina novata
me entendendo aos poucos
- perícia -
ritmo de semáforo amarelo
me piscando atenta

Era ela
A menina delícia
me comendo em afagos
- rimados -
ritmo de prazeres intensos
me sentindo por dentro

Era ela
A menina suspiro
se entregando sem pressa.

Seu olhar não me encara
- insisto -
olhos fechados
ela só sente
me mira em fissuras
mulher lábios quentes

Arranco gemidos
deslizo meus membros
enrosco meus dedos
sou toda desejos

Mulher obra mestra
Te encontro nos cantos
Permeia nas frestas
Me abala
- recanto -



segunda-feira, 15 de setembro de 2014

CORDIALIDADE DOMÉSTICA APLICADA

-CENA 1: Pai, após almoço preparado-servido-e-tudo lavado pela mulher “está conosco há tanto tempo que já é da família”, dirige a palavra a seu filho caçula, Pedro.

Mandou compras cigarros com o motorista da família.
Para o pai, aquilo fazia sentido, pois queria dar um certo ar de autonomia ao adolescente sempre protegido.


-Pois que compre tu, seu-seu-seu-seu...

[o xingo pichado no muro da garganta.
Quis gritar milhões de letras amontoadas.
Não se lembrou se V de vaia é sibilante ou fricativa.
Foi procurar no grande dicionário atualizado na biblioteca da casa.

Caminhou longos corredores até chegar à imensa sala.
Ali, tantos eram os livros que resolveu buscar outros meios.
Pegou seu iphone último lançamento,
acessou a internet,

digitou sua questão.
-Ah, mas é claro!]

Voltou para gritar com a consciência de estar seguindo corretamente a gramática;
sem violentá-la;
transgredi-la;
rasurá-la;
rememorando as boas aulas comportado na carteira do colégio branco particular.
"V-labiodental-fricativa, repita comigo, Pedro Henrique"

Na sala de estar, em frente ao pai para gritar, antes que a letra consciente escapasse de seus lábios, pode ver pela janela a filhinha mais nova da mulher “já é da família” sozinha, pequenina, apertando firme o dinheiro na mão direita, subindo a rua em silêncio a caminho do bar.

(nova versão do Quanto Vale? - escrito publicado em 23/06/2014)