terça-feira, 16 de maio de 2017

[ de golpe visto ]

1.

eu vi o golpe tacar pedras nas janelas
era feito de carcaça branca
alva cabeleira se escondendo por trás de uma careca

eu vi o golpe adentrar a justiça
palácio convidando meninos pretos
em chinelos e mangas nas mãos
a bater em retirada

eu vi o golpe nas capas revistas
o olho rápido vendo-a exposta em banquinha
o pensar numa única frase-e-imagem
- com quantas capas se faz um imaginário-nação?

eu vi o golpe pra mais de um ano passado
o povo entrando em trens todo-dia
a vida - tentada -
como se nada alterada estivesse

eu vi o golpe dizer não ir embora
o golpe não convidado chegada
o golpe desferido cruzado
golpe corpos-nutridos
- tão branquinho,
graduado,
rico

eu
vi
re-
vi-
de
dum
povo
no firme
crescendo
inteiriço as
fúrias depressa 
armados no sempre
revolta, punhos e flechas
de golpes bastantes recebidos
históricos: mais de quinhentos os anos
e nós, ah se sim, ainda erguidas, ergamos
e se caso for de vergar - sabemos - vergamos
mas segredo é que não quebra: caleja-e-voltamos





sábado, 13 de maio de 2017

grita, Manoela, chama

que é quando incendeia tudo
                                   ou
chama meu nome mesmo

que há de dentro é combustão



segunda-feira, 8 de maio de 2017

23º27'30"

Joaquin Torres-García (1936-esq/1943-dir)


nas costas
pousado plexo perimetral
- que é quando bússola não localiza um norte
º nós que raízes encontram-se sul º
e se faz cordilheira na descida dos cílios -

| destinos levados intrínsecos cá
de constructo colonos caravelas caminhos |

e já que de norte abdicamos
por saber descendência-sur
mulheres fibrosas d'latino-américa
transpassada linha entre trópicos
fermentadas em solos invictos
debulhadas semillas que crescem
a-gracia-das por la vida que ha dado |tanto|
encharcadas lloronas que fridas
escorridas d'aguaceros de mayo
retornadas presuntuosas mujeres

- haja que sul é o que {queira sempre} buscamos

localizo
as
: falésias
: planícies
: florestas

me deparo com
os
: seios dos montes
: rochedos
: sertões

daquele momento em que
tu a b r e - l a r g o os braços
apontando leste-oeste em cada falange d'indicador-e-polegar

/ e eu somente rio
rio
e²scorro
d'um gargalhar que é antigo /

nesse,

amplitude se faz entre guianas e uruguais
entre méxicos e patagônias
entre chihuahuas e ushuaias

é composto
º bússola outra reinventado ponteiro
{ aponte o sur, camarada - há sempre um sul para guiar }
º vejo em face geopolítica que não é mapa
mapa cansou-se de detalhes alinhados
pulou fora
descartou os zênites

e de quebrar compassos que só compõem as retas
| meu eu-afeto
meu interno-prometido
meu diecisiete volver em ciclos |
o que quer mais é deslocar o mundi
transpor cartografias
servir distância dos trópicos somente se for para saber época qual se cresce mais vegetação
florescem mais as camponesas
naturam aos montes gengibres nas beiras
colhemos nos pés de mangueiras as frutas

aí então
verás que
-sim!-
há que tenermos um sur
um sur pras vidas viverem de centro

'inda que bússola
-dessas encontradas pelos aís-
 atraia contrário magnetismo de sempre