terça-feira, 12 de dezembro de 2017

{ são quatro as irmãs }

foto: Adilson Pacheco

são quatro as irmãs
num total seis somadas a mais cinco guris

sabem ser verão
herdado da façanha mãe-delas | avó-minha
a gerar onze fortes sujeitos chegança ao mundo primeiro quando ela dezesseis anos menina

são verão
mesmo quando montante da vida quis ser rígido inverno
a congelar corpo nutrido 
empalidecer as finanças
esfriar os possíveis

fazem verão
beira-piscina
na ausência de infância passada
: beira-mar
não contemplada em passeios crianças dado custo de vida
- onze pequenos não se carregam assim facilmente pras férias

e são braços que alargam
buscando abarcar extensão de vida
de tudo que nunca coube nas mãos
mas que se amplia em miradas que enxergam ao longe
no além
de

são quatro as irmãs
:
semelhanças se fazem
nas bermudas aquáticas
nas blusinhas-senhoras
nos chinelos à vontade
nas canelas despidas
e
no tanto
corrido nas veias
das histórias já tão
que
- no perto -
são elas mesmas contínuas






segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

ANGELUS NOVUS EM TRÊS MOVIMENTOS + ANTE-SEGUNDO



"[...] Essa tempestade o impele irresistivelmente
para o futuro, ao qual ele vira as costas,
enquanto o amontoado de ruínas
cresce até o céu [...]"
Walter Benjamin


I.
de olhos feitos
| bem abertos |
ao atrás
buscando no antes
- acontecidos tempos -
pulso que desfaz flacidez-decrépita progresso
pra escapar d'ordenado secular mercantil d'vidas
e desaprender histórico criado
há que
:: nosotras mesmas ::
catatonar montante do que contam narrativas
e refazer histórias agora das que vencidas

ante-II.
vanguarda retardatária
- recomendado recusar olhos-adiante
olhos-adiante segredam às vistas o virá destruição

II.
é enxergar no pré
desfalecer existência
de tudo que num tempo
seremos o nada
só-pó esmagado na terra
que é pra semeia
o novo que não é a gente não -

III.
sobrevivida do passado
desafia supraviver é do próprio futuro
quando o dado de que seremos morte
se faz rascunho do que ainda somos vida
-
e d'entonar a cada cântico
saber que dissolvem-se
múltiplos
fragmentado anacronias
pois que do tempo
vivemos
 a torso do barco da História
que
- ao saber catastrofia -
filia à vista um ponto
a ser narrativa
grafia



[ "Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso" - Sobre o Conceito de História, Walter Benjamin ]



segunda-feira, 27 de novembro de 2017

[ a que serve ]

quem pensou que tudo acabaria num cometa
num vulcão
num raio que o parta
errou

errou porque ainda tem mais pra acontecer
errou porque taí,
vivinho,
com este corpo transitando existência

a língua minha
- que era pra ser pátria -
falhou
| é, as coisas ainda falham - que bom!|
fez linguadas palavras
que eu não me doo em linguagem

linguagem esta
que é
troca
é roçar língua-com-língua bem mais que criar semânticas
é montante vocábulos soltos
construção de léxico mesmo
- isso tudo que se faz no cerca -
e não no estudo episteme que criam oratórias
retóricas
comportamento falante
que nada entende do que compõe oralidade

linguagem mesmo é ver Inês vasculhando boca sem dente que conta do tanto vivido
é ver Vicencia apertar as trancinhas a dizer de tempo menina
é ver seu Dito explicando cadeira-plástico-calçada como era quarteirão que hoje só passa carro

pra tanto conjugar certinho
que bobagem!
palavra é pra comer
digerir
enfiar no cu
que aí brota a que serve
co mu ni ca
as ideias

per ma ne ce





sábado, 25 de novembro de 2017

[ escritas nomes :: ancestrais ]

(escrita tio Cid dada a mim em nosso último encontro - Festa do Rosário dos Homens Pretos, bairro da Penha, junho/2017)

[ escritas nomes :: ancestrais ]

tempo é rega
dando nomes pras carnes que nascenças
- geração trás geração -
a formar conjunto vivente
do que constitui dizer família

do que morta-carne hoje manhã
tio Cid, o mais velho
{ancestralidade pai}

- das sabedorias que confirmam ciclos
- das generosidades de aproximações
- das belezas de vida no singelo
- das pesquisas ancestrais a trazer informes de
quem fomos,
quem somos,
donde viemos

de quando em rasgo-encontro histórico trouxe tio Cid palavras de que ancestralidade Candido, que é pai de pai meu, nasceu em Manga - nas lidas das Minas Gerais - ali margem-esquerda de fortificado Francisco, Francisco; ele, o rio.
e que pai-Candido, Feliciano que é bisavô meu, era é de Carinhanha, terrinha Bahia, também margeado Velho Chico, à esquerda, mais nordeste  - do que vinham rotas-ao-sul até chegada São Paulo; das promessas progresso.
negro ele, retintinho; casado com branca Vicencia, bisavó minha.
da Silva os sobrenomes, pra traçar assim típico-brasil-escravizante nomeando aportuguesa as descendências d'áfrica.
pesquisa atual era ancestralidade mãe, avó minha, Esmenia ela; esse nome meu duplo-acompanhado que impõe potência nos caminhos que fibro. mãe e pai espanhóis, bisas-minhas, cenário Labirinto do Fauno fugidos de lá guerra civil espanhola, chegança interior São Paulo; Avanhandava cidade.

nos quase oitentas
lá vai tu sem vida-carne
mas com tanta vida-rega
fincada na história 
- a prosseguir descendências -

e são tantas bárbaras e rafaels e déboras e luiz fernandos e ivanas e marcos e carlas e renatos e elias e agathas e vanessas e mônicas e betos
que descendência erguida-está
no que 
| contínuos |
seguimos viva/os
a saudar você-histórico





terça-feira, 21 de novembro de 2017

foto: Daisy Serena


não que o retilíneo não nos agrade
- habita nele qualquer coisa de padrão que se faz sufoco pros ondes andamos; pros ondes miramos; por ondes corpóreas qu'estamos
{ vivas
{ firmes
{ inda-pé

desgolpear vistas na secura atrai descolamento-retina a mando tri-ângulos decoloniais
- hay que haver otras miradas
- otras geografias
- otros talhares

não tergiversa viseira quando nós
/ em diágonos /
somos todas
pois que três corpos no espaço
- aquém gravidade -
é sustância pro tempo
fazer dele
nós mesmas





domingo, 22 de outubro de 2017

[ uma mulher no metrô ciudademexica ]

uma mulher a mirar
raio-x maxilar no metrô
desliza olhos atentos à arcada dentária
descobrindo raízes
que sustentam mordidas

uma mulher a mirar
raio-x maxilar no metrô
revela a si própria
face que sobra
quando em corpo decomposto
restado no pós-morte

uma mulher a mirar
raio-x maxilar no metrô
é a certeza de que vida
- essa apenas -
finda nós tudo em ossos e dentes
do que sobra
- resistente -
a permanecer matéria

ainda pouco que seja
feito lembranças
do resto de algo
quando { ela }
não mais
será vida

(09/10/2017)




eu queria escrever um poema estilo Matilde Campilho
teria aquele rapaz caminhando pelo Brooklyn
eu citaria as marcas de cigarro que nunca comprei
seguido de
fugas de corpos
revólveres
retas paralelas

depois eu sairia pelas ruas dirigindo automóveis
contando das coisas que descobri nos fins de tarde
me perguntando se você reparou
nas vitrolas
nos alicerces dourados
e nos tigres asiáticos

enquanto eu folheasse um dicionário de inglês para encontrar algumas sentenças que tornassem cool meu poema

eu queria escrever esse poema
mas no meio da escrita eu encontrei
você

você num cruzamento movimentado no pico do trânsito cotidiano

você entre multidões
- fugas de corpos -
você nua
empunhando cartaz de alguma frase que não me lembro exato contra a censura nas artes

eram tantas
vocês todas nuas e nus
pralém conservadorismo vigente

eu tentando escrever um poema sobre o fraquejar de meus joelhos quando criança de encontro com uma pintura imensa numa sala de museu

mas tinha você
- multidão -
e mulheres que se beijavam pela visibilidade lésbica
seus direitos
e sanção do projeto de lei que institui a data

era pra ser só mais um simples poema
observar a cidade e agradecer à editora 34 por ter publicado Jóquei que parece que me agrada

mas tinha você
: multidão
: corpos nus
: beijos lésbicos
: mulheres negras em marcha
: pauta-aborto de há tempos
: e outras tantas

que os tigres asiáticos
não tiveram espaço nos versos
pois que se mantiveram em Ásia

eu queria escrever um poema
...
mas tinha você
- multidão -
e eu lá junta
: corpo nu
: cartaz empunhado
e
: era em mim seu beijo lésbico dado

(07/10/2017)