Apele Ayô

"Dedo-dedicatória:
Tu me tocas e eu me dedico à você"

Era tempo de não tentar ser lírica-luta.
Mas se esqueceram de queimar A rosa do povo de minha estante”


DE PELE, APELE

a pele que rasga
a couraça ancestral
depara-se
- ao findar jornada -
com o rusgo fosco
de secular memória.

a pele apelo,
do brado guerreira,
da vida estribeira,
beirada
às vestes,
batida-estaca
folguedo
cessante,
tambor trovejante
de vidas
agrestes.

a pelo desnudo
de quem
- corpo erótico -
meus traços
confundem
as riscas maternas.

Fincadas na vida,
do escovar
contrapelo,
de gritos griôs,
nas margens
da História.

apele, ayo,
se marque na vida
lutando nos dias
opressões clandestinas.

não fui eu quem escolheu pele assim.
pele rota, pele cinza,
pele broto.
virgens toques.


antes a pele corisco,
pele vermelha,
negrume da noite.
terra batida.
retiro xamânico,
pele candente.
pontuda, queimada,
lusco-fosco alumia.
pele reforço,
terena,
xavante,
ticuna,
kariri,
caxinauá,
kaingang.

aciono caciques,
mães fortes da selva,
na mata ancestral,
fortalecem terreiros.
nem vem, estou plena.
não cutuca, desconhece.
não me mexe, sou antiga,
se me toca, couro aquece.

ainda
há pele

ainda
há pelo

no todo
APELE

Terras nossas.
não desterros.


blindado

viu na banca
venda livros
comprou
casamento blindado

leu metrô
semana toda
divulgou para as amigas

aplicou técnicas
pílulas
diárias

livro não barrou a bala
disparada por marido
de blindar
total falível

- é mais um feminicídio -


BATEU PANELIN, FOI SENHOR?

Bateu panelin, foi senhor?
Tocou no cabo-madeira
com colher de pau da feira
da janela na Pompeia
ou na Vila Madalena

foi?

Beijou a mãe pela manhã
com flores desejou feliz dia
mulheres internacionais
- mulheres mansas,
mulheres lisas,
mulheres brancas,
delgadas cozidas -
- como bem quero, homem que sou

Trepou com a esposa
lambuzando chocolate
deixou os filhos com a babá vestida branco-uniformizante
-pra que se a velha não tem mãe?
- pra que se abortou foi todos filhos?
- pra que vai querer folga?
- pra que

Comeu risoto quentinho
pelas mãos da mulher preta
na panela inox prime
revestida antiaderente

lambeu beiços bicos brancos
flores para a
professora da filha
escola particular
- amante, claro, porque sou homem, doutor -

telemensagem para a garota vizinha

Final noite
liga barraco mulher-doméstica

-Dona Zefa, onde guarda as panelas aqui de casa?

Dona Zefa, extremo-sul
nem ouvindo de alto ligação
panelas todas
cisternamente
recolhendo
águas das chuvas


ESCORRE

E se corro
é que o mar em mim
há revolta
há urgência.

Despenteia os corais
rompe areias arenitos
grãos finitos pedra calcário
rochas mármore telha nas coxas

Quebra imagem da santa
Enfeita as mandingas.
São flores nas ondas
batismo
odoyá

Água que vomita em mim
não guenta olho meu nas vielas dos guetos

É recife de lá - eu cá não me arrisco

Se corta as vagas,
come fibras,
nutre artérias,
sente as conchas
- não há pérolas

Que resta eu emaranhada das redes?

Pescador, vem cá buscar o que te sobrou

Pescadora mulher não se encontra
-é coisa de homi, é?
-Puxa as redes, mulher que segura
corta as espinhas, descama mãos firmes
serve à mesa família todinha
homem na rede
mulher limpa-lava-seca-cozinha-é-mais-uma.
Recua ligeira que as ondas já voltam

Não,
não aprendestes a nadar -
se flutuar foi preciso
navegar tornou-se um risco

Mar revolto:
quem foi que te assim fez?

Vida esqueceu foi de remar
Afogou primeiro metro
entupiu veias das bílis
respira mar
pulsoceano

lá vem ondas
veleiros
náuticos
brisa das vagas
ventos convulsos

Desce pedras
beira montes
corta rusgas
rasga mangues

Cupins de mateiros
caçando fugidos
é fogo no mato
cachorro que late
combate inimigo

roça primária
de mar
há estrada

léguas sem fim
cor
é
mar-fim

caminho que corta
afoga
afaga

Batidas gole a gole
da represa que é senão

- se seca
- é seca
- não cessa
- resseca

Boiar.
Boiar sempre.
Como quem num fôlego só
rechaçasse a imensidão.


DA PRECISÃO

Se navegar preciso fosse
vivia eu todinha a me banhar neste seu mar de você.

Mas para nós,

imperativo
de
ser
mulher,
negra,
lesbiana,

viver é questão de precisão.
Necessidade mesmo.
Instante de luta constante.

Navegar é coisa de poeta português homem branco,
cantor-compositor baiano vida sussa.

A gente não.
A gente é luta.
Mulher firme que rios e mares disputa.

Porém quando atraca em terra,
- ai, neguinha, segura-

Segura que são séculos
e mais séculos
de ancestralidade a guiar.

Força nossa é força-raiz,
seja água,
terra,
éter,
fogo,
sangue,
suor,
e
motriz.


MIRANDO JOANA

A primeira vez que vi Joana
Não, ela não percebeu que eu a espiava.
Deitou suas palmas no arrendondar dos olhos
e em leves suspiros girava os pulsos,
esfregando-os em pêndulo.

A primeira vez que vi Joana sozinha
Seu corpo magro não me deixava identificar-me com aquela falta de curvas.
Rolou a mão até a entrada da bolsa larga
e tomou para si como quem recusa afetos
uma agenda surrada.

A primeira vez que vi Joana sozinha sentada
Saiu de seu bolso jeans um celular que,
em seguida,
numerou dígitos firmes.

A primeira vez que vi Joana sozinha sentada corpo surrado
Sua débil voz ao telefone ensaiava um pedido confuso,
Inaudível aos meus ouvidos metros distantes.

A primeira vez que vi Joana
- Manhã lenta
Viela acordada
Crianças nas escolas -
foi também a vez início
O primeiro baque,
O ver mim mesma na outra alguém.

Se antes eu não somente vizinha fosse
Os gritos constantes ouvidos,
Os estampidos secos dos punhos,
Nada não talvez pudesse ter sentido Joana

Porque eu teria sabido agir
Sem medo
Valente
Tal qual mulher que também sou
E que nas horas inertes já golpes idem recebi

Calei parada
- A figura do grão homem machado empunhando os golpes -

No entanto,
do silêncio soube eu interromper a porta fechada
- primeiro momento de Joana a me olhar -
Paspalha, indefesa, leite fervendo no fogãozinho ao canto,
na pia ainda o copo americano sujo deixado por aquele ele.

Estreitou-se ela em meu corpo com o que lhe restava de garra daqueles braços finos,
Aconchegou-se lenta pedindo proteção laroiê.

Nos vimos mulheres
encontrando um lugar comum
- dor, semente, partilha, regaço, ventre -
Ayabás reerguendo pra vida
Ponteando florins,
Pareando as flechas,
Acertando as miras.


CHÃO DA MINHA TERRA

Hoje é mais um dia
Fincarei meus dedos no chão da minha terra,
Debulharei o trigo,
Colherei abacates nos pés de manga.

É refazenda.

Não se passa um dia sem que eu,
unhas sujas,
não encare Gaia.

Nenhum dia é passado sem que eu,
pés descalços,
não ouça o retumbar de meu peito.

Aqui ecoam gritos de milhares.

Eu, Anita, a carregar as pedreiras do mundo.
Anita-mulher-rocha-sobre-rocha,
a arder num sol que impede
o rolar das águas de março.

O verão não fechou,
As gotas de chuva secaram,
O salário é minguado e o suor de meu trabalho
não trouxe a revolução.

É novo tempo de espera;
Tempo-sólido-pedra-sobre-pedra

Um martelo que bate,
um facão que atravessa,
uma serra que encerra
os limites da mata espessa.

Semi-árido-extra-seco do sertão
(não era este um país tropical?)

De volta o novo dia:
lá estão meus dedos ásperos a arar a terra

-meus dedos móveis enlameados a cozinhar o trigo esparso do jantar

-Pois venha, Matilde, venha comer, minha filha

: mesmos dedos passíveis de apertar o gatilho

: guardo em mim o ímpeto rebelião

: por ora, é torcer para que os milicos não apareçam

: e praticar [tiro ao alvo] sempre

: -Quem disse que os donos da terra vencerão novamente?


CORDIALIDADE DOMÉSTICA APLICADA

-CENA 1: Pai, após almoço preparado-servido-e-tudo lavado pela mulher “está conosco há tanto tempo que já é da família”, dirige a palavra a seu filho caçula, Pedro.

Mandou compras cigarros com motorista da família.

-Pois que compre tu, seu-seu-seu-seu...

[o xingo pichado no muro da garganta.
Quis gritar milhões de letras amontoadas.
Não se lembrou se V de vaia é sibilante ou fricativa.
Foi procurar no grande dicionário atualizado na biblioteca da casa.
Caminhou longos corredores até chegar à imensa sala.
Ali, tantos eram os livros que resolveu buscar outros meios.
Pegou seu iphone último lançamento,
acessou virtualidades,
digitou indagação.
-Ah, mas é claro!]

Voltou para gritar com a consciência de estar seguindo corretamente a gramática;
sem violentá-la;
transgredi-la;
rasurá-la;
rememorando as boas aulas comportado na carteira do colégio branco particular.
"V-labiodental-fricativa, repita comigo, Pedro Henrique"

Na sala de estar, em frente ao pai para gritar, antes que a letra consciente escapasse de seus lábios, pode ver pela janela a filhinha mais nova da mulher “já é da família” sozinha, pequenina, apertando firme o dinheiro na mão direita, subindo a rua em silêncio a caminho do bar. 

ERA ELA

Era ela
A menina sutil
me olhando em análise
- lenta -
ritmo de cantiga ninar
me embalando cadente

Era ela
A menina bigorna
me sentindo com força
- afoita -
ritmo de mascar chicletes
me mordendo as beiradas

Era ela
A menina novata
me entendendo aos poucos
- perícia -
ritmo de semáforo amarelo
me piscando atenta

Era ela
A menina delícia
me comendo em afagos
- rimados -
ritmo de prazeres intensos
me sentindo por dentro

Era ela
A menina suspiro
se entregando sem pressa.

Seu olhar não me encara
- insisto -
olhos fechados
ela só sente
me mira em fissuras
mulher lábios quentes

Arranco gemidos
deslizo meus membros
enrosco meus dedos
sou toda desejos

Mulher obra mestra
Te encontro nos cantos
Permeia nas frestas
Me abala
- recanto -


QUE BATE, QUE É SEIO

Bate-rebate,
bate-retoque,
bate batuque
bate tambor.

Bate dedilha,
compridos,
profundos.
Repara na pele,
no toque que é dela.

A moça disfarça,
contraste distrai,
visão dialética
aprendeu foi em práxis.

Me toca no peito,
batendo pulsante,
é toque que toca,
no corpo
um rompante.

O peito da moça
é força escondida.
Seio meu arredondilha,
Seio meu pontiagudeza.
Que jeito bicudo do toque de quem?

É toque corisco,
batida,
maleita.
Num bat-macumba,
menina
me deixa.

Me deixa que a vida
é o toque de muitas.
Meu corpo aceitando
o que topa nos baques.

O que fica é o fino
de existir enredando,
batida que estanca
o tempo-que-resta.

Te encontro em meus seios,
na estaca miúda.
Da batida espalmada
nos putos das gentes.

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